>> o futuro das redes - I
O presidente da Alcatel-Lucent vem ao Brasil falar de mudanças...
A Alcatel-Lucent vai se transformar num fornecedor de serviços complicados, mais do que um fabricante de produtos de telecomunicações, promete Ben Verwaayen, o presidente mundial. Ele visitou o Brasil na semana passada, tirou dúvidas de funcionários, visitou clientes. Funcionários de operadoras brasileiras, diz Verwaayen, imaginam uma Alcatel-Lucent que já não existe mais.
Na verdade, a Alcatel-Lucent tem vendido menos produtos que seu principal concorrente no momento, a Ericsson. Os funcionários da Alcatel e da Lucent trabalharam bastante nos dois últimos anos para fazer a fusão dar certo, mas até agora a Alcatel-Lucent acumulou prejuízo de US$ 11 bilhões. E então veio a crise financeira internacional.
"Adoro as crises", diz Verwaayen, um holandês de inglês fluente. "Uma crise nos dá a chance de fazer escolhas radicais, que não faríamos em tempos de fartura."
Verwaayen dirigiu a British Telecom por sete anos, antes de assumir a Alcatel-Lucent no final de 2008. "Lutei por sete anos com a mesma pergunta", conta Verwaayen. "Por que esse sujeito, o cliente, precisa ser meu cliente?" Se a Alcatel-Lucent precisa resolver problemas complicados para sobreviver à crise e então crescer, as operadoras precisam resolver problemas mais complicados ainda.
>> o futuro das redes - II
... e prometer ajuda às operadoras de rede.
O que as operadoras fazem, diz Verwaayen, os clientes não valorizam, especialmente os mais jovens. Eles valorizam o aparelho que seguram nas mãos, e valorizam os portais de Internet de onde baixam os serviços legais. Mas a rede, a que interliga o aparelho aos portais, eles não valorizam: pode ser qualquer uma, desde que seja barata. Para Verwaayen, a operadora consegue mudar isso, se entregar ao criador de serviços de Internet uma rede mais inteligente, capaz de entregar cada serviço em qualquer aparelho, por meio de qualquer protocolo de rede, por meio de qualquer tipo de acesso à rede. Se a operadora montar uma rede assim, ela tira muito trabalho de quem cria serviços de Internet, e ela simplifica a vida dos clientes. Ela pode cobrar mais. Para montar esse tipo de rede, a operadora precisa de ajuda, e Verwaayen pretende fazer com que a Alcatel-Lucent se especialize em vender esse tipo de ajuda.
Funcionários da Alcatel-Lucent no Brasil já estão no caminho certo, diz Verwaayen. Em 2008, a equipe brasileira conseguiu 41% da receita com serviços. (Em 2007, 30%.) É a maior receita com serviços de toda a América Latina. Dessa receita, 50% vieram de serviços associados a algum produto de rede, de várias marcas; 25% vieram de produtos da marca Alcatel-Lucent; e 25% vieram de serviços não associados a nenhum produto de rede.
Um exemplo: operadoras brasileiras contrataram a Alcatel-Lucent para descobrir como localizar rapidamente onde está um determinado internauta, para fornecer as informações sobre esse internauta à Polícia Federal. É o único jeito, por exemplo, de surpreender um pervertido enquanto ele transmite fotografias de crianças para um portal de pedófilos, o que ele faz em poucos minutos. "Nesses contratos, nós nos comprometemos a transferir o que aprendemos para as operadoras."
Em 2009, diz Verwaayen, a equipe brasileira precisa ganhar 50% da receita com serviços por meio desses serviços não associados a nenhum produto de rede. Esse é o futuro. A equipe brasileira ainda pensa em departamentos e em produtos, diz Verwaayen, mas isso deve mudar.
Em 2009, a Alcatel-Lucent não dará lucro, mas conseguirá se explicar a todos os funcionários de operadoras no mundo todo. No segundo semestre de 2010, promete Verwaayen, ela dará lucro, já na condição de fornecedor especializado em serviços complicados. Aos que duvidam, Verwaayen dá a receita de um bom presidente: "Eu não posso ser razoável."